Em tempos ditados pela incerteza e misturas de valores, notamos um bombardeio de informações jogadas às vidas das pessoas durante todo tempo. Novas tecnologias sendo utilizadas como fontes de propaganda e incentivo a compras e aquisições, culturas montadas a partir da televisão e um novo mundo sendo construído da maneira que as características da contemporaneidade nos instruem. Trancafiamos-nos dentro de casa e instalamos inúmeros aparatos ao nosso redor para gerarmos uma sensação mais real de segurança. Não conhecemos nossos vizinhos, não temos sequer tempo para almoçar ou curtir nossas famílias, não confiamos nas pessoas e, talvez a pior parte: não vivemos como queremos, mas segundo os olhos (que, diga-se de passagem, estão sempre abertos e nos vigiando todo o tempo) coercivos da sociedade. Certa ocasião, um sábio professor me fez a seguinte indagação: “Se você fosse você, quem você seria?”. Não soube respondê-lo.No mundo onde a publicidade faz as regras e a estética passa a ser prioridade, os desejos são constantemente confundidos com as necessidades e, a partir daí, o “parecer ser / ter” tem muito mais valor e significado àquilo que, efetivamente, somos e temos. Mais uma vez, a mais insatisfeita das criaturas vai além e vemos isso transgredir severamente as esferas do bom-senso (de antigamente, pelo menos) e agora não nos contentamos apenas com bens materiais. Hoje, queremos mudar nosso comportamento e até nosso corpo. Precisamos trazer a dramaturgia ao nosso mundo real, afinal, quem não é “famoso” é chamado de “anônimo”, ou seja, não tem nome, nem expressão. Torna-se um indigente no meio de tantos artistas e celebridades que acabam sendo uma espécie de referência neste meio de vida tão vago e supérfluo.
Sempre que pensamos ter chegado ao limite dos absurdos, inventamos mais alguma coisa que nos prova o contrário. Hoje moldamos nosso corpo conforme nossa necessidade (ou desejo?). Nem mais nos sentimos satisfeitos da maneira que nascemos. E, parece incrível, mas já estamos acostumados com as novas tecnologias que entram no mercado a fim de mudarem o que somos também fisicamente. As mulheres podem aumentar ou diminuir os seios sem limites, engrossar as pernas ou “turbinar” o bumbum. Homens escolhem a cor de seus olhos, cabelos e, em uma semana, mudam o corpo como se tivessem freqüentado uma academia de ginástica por uns cinco anos. Estamos sem rumo, sem referência própria. Não sabemos sequer para onde ir. Talvez nem queiramos isto. Ao contrário da evolução, aparentemente estamos andando para trás, para um mundo sem personalidade e crítica, voltando aos tempos nômades.
O culto à imagem se ostenta ainda mais a cada dia. As grifes de marca buscam sempre novos meios para seduzirem as pessoas que se transformam em potenciais consumidores. O shopping – center se torna um local sagrado, com características e cultos próprios. As vitrines, como forma de sedução, instigam à felicidade, à aquisição de um produto contemplado por olhares de todos os tipos. O invólucro de vidro separa o desejo do poder, o real do simulacro. Aliás, na maioria das vezes não são produtos que nos são oferecidos, mas estilos de vida.
Somos consumidores e ponto final. O conceito de ser – humano passa a ter um papel secundário, mas ambos estão intrinsecamente ligados. Nosso grau de significância é baseado na potencialidade que temos em poder gastar, comprar, consumir. O ser – humano passa, de fato, a ser humano quando exprime seu papel de consumidor. Ainda em 1710, George Berkeley, filósofo irlandês, apresentou o princípio de que “ser é ser percebido” na obra Tratado sobre os princípios do conhecimento humano. Vivemos em função dos outros e nossa satisfação só se faz quando aprovada pela sociedade.
Essa relativização dos valores traz como conseqüência um aglomerado de pessoas inseguras e extremamente baseadas em sensações. O prazer momentâneo e as constantes reconfigurações dessa sociedade nos remetem ao imediatismo e à impossibilidade de criar um determinado formato a ela. O sociólogo polonês Zigmunt Bauman, nos confere em seu livro, “Modernidade Líquida”, que a busca de cada indivíduo pela sua identidade vai de encontro às ações praticadas em nosso tempo e, quando comumente contaminada pelas ações atuais, não mostra força suficiente para enfrentar as divergências da sociedade do consumo.
A força exercida sobre cada cidadão é extrema. Nossa personalidade é, em grande parte, a união de características das outras pessoas. Meio obrigados, temos que seguir as “regras” impostas e caso não o façamos somos excluídos de nosso meio como um rebelde ou uma ovelha negra. Entretanto, até a contracultura muitas vezes passa a ser moda na contemporaneidade. Participar de movimentos alternativos ou usar camisetas contendo fotografias de líderes revolucionários que só conhecemos pelo nome faz sucesso. Aliás, os próprios movimentos alternativos contemporâneos não têm, em sua maioria, uma menção a ser seguida. Virou consumo, entretenimento. Coturnos, vestimentas negras, cabelos arrepiados e coloridos, piercings em lugares até então exóticos no corpo; enfim, tudo isso é comum em nosso cotidiano, mas quase nenhum desses símbolos traz uma representação expressiva.
Afinal, se não temos um pensamento para seguirmos ou uma referência em nossas vidas, estamos dispostos a qualquer coisa e não nos incomodamos com isso. Talvez, dentre as inúmeras anomalias e os modos de vida cada vez mais loucos a que nos adaptamos, a principal característica da sociedade contemporânea seja, exatamente, a de não ter característica alguma.
Afinal, se não temos um pensamento para seguirmos ou uma referência em nossas vidas, estamos dispostos a qualquer coisa e não nos incomodamos com isso. Talvez, dentre as inúmeras anomalias e os modos de vida cada vez mais loucos a que nos adaptamos, a principal característica da sociedade contemporânea seja, exatamente, a de não ter característica alguma.
Um comentário:
Muito legal seu texto e ,principalmente, suas ideias.
Continue escrevendo que, tenho certeza, muitas publicações estarão por vir.
Parabéns!
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